Onde beber e comer bem em Lyon
Há cidades pelas quais temos uma certa simpatia mesmo que nunca lá tenhamos estado, verdadeiramente. No caso de Lyon, atraía-me a ideia de ser considerada a capital da gastronomia francesa e com a sua proximidade de regiões vinícolas como as Côtes du Rhone, Beaujolais ou o sul da Borgonha (Mâconnais). Ora, para um adepto de boa comida e vinhos (ainda para mais Beaujolais é o berço do movimento dos vinhos naturais), só estas duas circunstâncias já eram suficientes para querer ir até lá. Quis ainda a feliz coincidência de ter lido, recentemente, o livro de um autor que muito gosto, Bill Bufford, que relata, em “Dirt”, após passar cinco anos na cidade, as suas aventuras como aprendiz de cozinha e a sua obsessão em busca dos segredos da cozinha francesa. Posto isto, só tinha de esperar que a pandemia desse tréguas e os países abrissem para adquirir um bilhete de avião e viajar até lá. Na verdade, o que eu não esperava era chegar e encontrar uma cidade tão aprazível, bela, com muitos pontos de interesse, fácil de percorrer, segura, acessível (€), e com a dimensão ideal - nem pequena, nem demasiado grande, como Paris É um pouco das experiências do ponto de vista gastronómico que lhe deixo a si, leitor. São cinco sugestões de restaurantes (ou espaços) de diferentes estilos e níveis, onde poderá comer e beber bem em Lyon. Espero que sirva de aperitivo. Disfrute.
- Texto: Miguel Pires
- Fotografia: Helenio Barbetta e Andrea Straccini
Antic Wines
Os números impressionam nesta loja, (bem como em outros dois lugares associados, na mesma área), na Vieux Lyon, a parte velha da cidade: 4800 referências e um stock de 127 mil garrafas de diferentes regiões do mundo e nos mais diversos formatos. Contudo, a alma do espaço e a sua grande mais-valia é o carismático proprietário, o lusodescendente Georges dos Santos. Jojo, como é conhecido no meio, gaba-se de fornecer a 80 estrelas Michelin no país e de ter a fama de conseguir o impossível. “Se uma loja tem uma ovelha com cinco pernas, eu tenho essa ovelha de cinco pernas”, diz brincando. Depois disto é quase redundante dizer que a sua loja (sobretudo a principal) é o paraíso de qualquer enófilo. No piso térreo, personalizado e organizado de forma meio caótica – pelo menos à primeira vista – encontramos vinhos por todo o lado, entre quadros autografados por estrelas de rock nas paredes.
Ao fundo, num balcão, há normalmente várias garrafas abertas e é aqui que, estando Jojo na loja, começa a interação entre o proprietário e o cliente. Porém, com ele ou não, é imperativo descer ao piso inferior, um verdadeiro santuário escavado no solo onde pousam à vista Borgonhas de topo (com vários Romanée Conti, claro), nomes mais e menos sonantes de Bordeaux, rótulos de culto do Loire, Côte du Rhone ou Califórnia, colecções de vin jeune do Jura, Portos de diversas colheitas, muitas delas antigas, etc.
Mas não são apenas os grandes nomes, os châteaux famosos e os Grand e 1er Crus desta vida que encontramos na Antic Wine. Como um bom caviste, Georges dos Santos tem um prazer especial em descobrir e dar a conhecer vinhos menos sonantes e com bom custo benefício, sejam eles de onde forem, do Languedoc gaulês ao Douro português.
Não admira, por isso, que ao longo da mais de uma dezena de anos que leva aberta, tenha ganho vários
prémios como o de caviste do ano da Revue du Vin de France, ou uma das dez melhores lojas de vinhos do mundo, da Wine Spectator.