Casas do Côro, Marialva
Marialva
Densa e profunda, a aldeia de Marialva mexe com as nossas entranhas. Entre o Alto Douro e o planalto beirão, há uma energia intensa que se sente nas fragas, na rocha magmática compacta, na imponência serrana. Entre vales de vinha, amendoeiras e socalcos de granito, qualquer coisa grita fundo cá dentro, quando observamos a paisagem silenciosa esculpida por civilizações castrenses e templários. E se Natal e Novo Ano significam renascer, este é o lugar ideal para passar uns dias vibrantes na saison das festas. Já agora, nas Casas do Côro saímos como novos.
- Texto: Fátima Iken
- Fotografia: Maria João Gala
Sabem daqueles lugares onde a natureza parece surgir em estado puro e nos obriga a palmilhar o silêncio apenas quebrado pelos nossos pés na gravilha? Onde só se ouve o som de uma ave solitária lá longe, e, ao mesmo tempo, parece que estamos cada vez mais perto de nós mesmos?
Da janela do nosso quarto vemos o longo cipreste balançar sob o vento que zurze lá fora, enquanto as gotas de água titilam no vidro. Mas no horizonte, o sol espreita, de repente, entre a névoa, iluminando o dorso das montanhas, as vinhas matizadas de ocre, enquanto as nuvens negras se dissipam lentamente. Um arco-íris perfeito surge de surpresa e um estorninho, num ramo de zimbro, parece também apreciar.
O inverno pode bem derreter lá fora. Cá dentro, no interior das Casas do Côro, vogamos ao sabor do tempo interior, fluido e fragmentado, enroscados numa manta sem ponteiros do relógio. Apenas a serenidade da paisagem que entra pelas vidraças nos deixa sem palavras, expectantes no silêncio que o fogo estrepita. O perfil do castelo, sobranceiro e imponente, adensa o mistério do lugar.
O Portugal profundo interior tem destas coisas. Destes momentos quase solenes em que podemos confrontar-nos com a densidade do tempo e a profundidade da paisagem granítica. Onde o marulhar dos cursos de água nos acorda e refresca. Só apetece ficar calado, perscrutar a linguagem dos bichos e das pedras, entre outeiros e penhascos, passando suavemente a mão pela rocha paleolítica e cheia de musgo.
Mas, em tempos, esta aldeia de Marialva, na Mêda, Guarda, esteve em ruínas. As casas abandonadas, depois de um projeto visionário, são hoje pequenos redutos de prazer.