shape
Living

Adega S. Nicolau: de pai para filha

Porto

A alma da Adega de S. Nicolau foi o sr. Coelho. Mas, talvez porque a sua filha, Renata, soube tão bem cumprir a missão de que foi incumbida e passar a mensagem do pai, o facto é que apesar do senhor Coelho já não estar fisicamente aqui, sente-se em cada canto da casa. O Douro, adormecido ao lado, testemunha.

  • Texto: Fátima Iken
  • Fotografia: Ricardo Garrido
16 de March, 2026
Renata Coelho

“Não alterei nada. Só fiz uns ajustes na apresentação, no aperfeiçoar da questão do serviço e nas condições de trabalho dos funcionários. Isto é um projeto familiar e assim será sempre.”

Renata Coelho

O senhor Coelho era um carácter e tanto. Sempre atento e de chapéu de palha (que ainda se encontra pendurado na parede), vem à memória o seu cuidado e simpatia, apesar do espírito direto e irreverente. Foi de Resende que veio, aos oito anos, de comboio para o Porto, mal sabendo ainda que trazia consigo a vontade de dar corpo à aura da cozinha saborosa da sua terra, feita com tempo e cuidado.

O local do restaurante, na Ribeira, tem mais de 100 anos, tendo surgido, a princípio, como adega e casa de pasto, em 1930, ainda no tempo do Estado Novo. Sofisticou-se, entretanto, o espaço, a recuperação foi sabiamente executada, num projeto de arquitetura da Skrei que conferiu nova vida à Adega S. Nicolau, parecendo que viajamos num barco de madeira à vela por essa Ribeira fora.

Renata Coelho cresceu entre estas paredes e também ela foi convocada a dar prossecução ao restaurante depois da morte do pai, algo que já fazia com gosto enquanto ele era vivo, pois eram muito cúmplices. Ela que até quis seguir uma carreira de assistente social. Mas o restaurante e o pai falaram mais alto. Em boa hora, pois assim podemos usufruir de toda uma escola por onde já passaram gerações e muitas memórias, mas acima de tudo, uma cozinha de sapidez intocável, onde nunca nos arrependemos de regressar, como quem volta a casa e onde se tem atenção aos detalhes.

“Não alterei nada. Só fiz uns ajustes na apresentação, no aperfeiçoar da questão do serviço e nas condições de trabalho dos funcionários. Isto é um projeto familiar e assim será sempre”, afirma Renata. Com serviço contínuo – abre ao meio dia e fecha às 22h30 – aqui não se pára nunca de trabalhar. Situado num espaço recôndito depois da escadaria que se desce junto à Igreja de S. Nicolau, é já desembocando na vista larga do rio Douro que se anicha a Adega S. Nicolau, aconchegada à encosta.