Um dia na “Cidade-Museu” de Mértola
Há destinos que se visitam e outros que se percorrem como se fossem páginas vivas de um livro. Pertencendo sem dúvida a esta segunda categoria, Mértola deve ser vista como um livro de história volumoso e venerável que atravessa séculos, recuando até aos tempos dos Fenícios. Nesta “cidade-museu” andamos sobre um rico património, único em Portugal.
- Texto: Tony Smith
- Fotografia: Duarte Drago
Passar um dia inteiro dentro de um museu pode ser considerado, por muitos, uma grande maçada, ou até — nas palavras dos meus filhos adolescentes, há poucos anos, nos corredores da Galeria Uffizi — um caso de crueldade parental, ou mesmo motivo suficiente para abandono do pai!
Passar um dia em Mértola, porém, é um prazer, mesmo para os mais alérgicos a galerias, coleções e acervos. Caminhar ao ar livre pelas suas ruelas serpentinas e becos estreitos é também viajar no tempo, pois sob os nossos pés encontram-se camadas sucessivas de ocupação humana que remontam, pelo menos, aos fenícios, passando por romanos, visigodos, muçulmanos e cristãos. A Myrtilis Julia dos Romanos deu lugar a Martulah no período de Al-Andalus e, após a reconquista, a Mértola.
Cada civilização deixou os seus vestígios que hoje fazem parte de um percurso integrado no Museu de Mértola – Cláudio Torres, que não é um museu único, mas sim um conjunto de núcleos museológicos, casas e escavações, dispersos pela vila.
Todas estas ruas, estes edifícios e estes núcleos museológicos assentam sobre camadas arqueológicas que continuam a ser estudadas. Esta sensação de profundidade histórica transforma a visita numa experiência única, onde o passado não está distante, mas é sentido, escondido por baixo dos nossos pés.
Este nosso roteiro pedonal permite explorar, num único dia, alguns dos pontos mais significativos da história contínua desta vila, outrora um importante entreposto comercial naquele que foi o porto mais setentrional do “grande rio do Sul” – o Guadiana.